Câmara discut...

Câmara discute municipalização do ensino em Audiência Pública

A Câmara realizou uma Audiência Pública para discutir o Projeto de Lei no 46/21, que autoriza o Poder Executivo Municipal a aderir ao Projeto Mãos Dadas e dá outras providências, no dia 22 de junho. Com a adesão ao projeto, o município participaria da descentralização do ensino, compreendendo o recebimento de escola de ensino pré-escolar e fundamental da rede pública do Estado. Na Reunião Ordinária, no dia 5 de julho, o projeto foi retirado pelo Executivo.

A diretora da 7ª Superintendência Regional de Ensino, Helenice Rodrigues, explicou que a municipalização é uma absorção de ensino fundamental I pelo município, que está prevista tanto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) quanto na Constituição Federal, e que a obrigação do Estado é do 6o ao 9o ano, o Fundamental II, e Ensino Médio. Falou que o Estado dava vantagens, contrapartidas e verbas para obras e manutenção e custeio ao município e aos professores, uma pós-graduação, para que pudessem atuar do 6º ao 9º ano. Que estava em fase de negociação com o município para ocorrer da melhor maneira possível.

Explicou que foi oferecido ao município a cessão de servidores do 1º ao 5º ano, com a anuência dos professores, por um ano com o ônus para o Estado, havendo necessidade por mais alguns anos. Foi oferecido o valor de R$ 481.143,00 para reformas e o valor do FUNDEB nesta absorção entraria nos cofres da prefeitura em 2024. Informou que existia a possibilidade de os alunos continuarem na Escola Cabo Luiz de Queiroz do 1o ao 5o ano e do 6o ao 9o ano também com a gestão do município e do Estado.

A diretora explicou que existia a possibilidade da entrega total do prédio do município pelo Estado e os alunos do 6o ao 9o ano seriam atendidos em outras escolas. Acrescentou que nunca houve compromisso do Estado com o designado além do tempo de contratação, e que na diminuição de turmas e na remoção de servidores perderiam o cargo. Falou que o professor de Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) só atua quando existe aluno surdo, e o professor de apoio, quando existe aluno com necessidades específicas. Completou que a demanda em geral está caindo muito nas escolas estaduais.

Explicou que os designados têm contrato até 31 de dezembro, é o que o Estado assegura se não houver redução de turma ou remoção de efetivo para a escola. Colocou que este ano o Estado garante os recursos e que o ano que vem não estão garantidos. Com relação à educação integral existe uma previsão para 2022, uma turma de integral do 8º ano com 34 alunos e uma do 9º ano com 24. Informou que na verdade o Estado investe na educação integral que não é obrigatória e depende de os pais quererem. Expôs que o município tem uma estrutura melhor para atender os alunos do 1o ao 5o ano, pois está muito mais próximo das crianças do que o Estado, que quer melhorar o Ensino Médio, reduzindo inclusive a perda dos alunos, um ensino integral, um programa do Governo Federal.

Completou que atualmente a demanda da Escola Estadual Cabo Luiz de Queiroz, no Vila Verde, é de cerca de 20 alunos para o Ensino Médio; que o prédio é do município e está cedido para o Estado; e que os municípios que ainda têm Ensino Fundamental I mantidos pelo Estado são: Baependi, Cruzília, São Lourenço e Itanhandu. Explicou que a garantia é só para os efetivos e que a intenção do Estado é só melhorar a educação do 1º ao 5º ano e elevar a qualidade do Ensino Médio, que está perdendo muitos adolescentes.

A professora Cristina Vilhena leu uma carta em nome de todos os professores e funcionários da escola. Garantiu que oferece um ensino de qualidade e que a equipe realiza um ótimo trabalho há anos. Colocou que a verdadeira educação é oferecida de forma integrada com a comunidade, com os estudantes e familiares, citando alguns projetos desenvolvidos: o de recuperação da mina de água no Santa Tereza, o de aproximação dos alunos com os idosos do Asilo Santo Antônio, o de combate às drogas e o de conscientização sobre o lixo; bem como os de incentivo à cultura e à música, a fanfarra escolar e as congadas.

Expressou que a escola é uma referência social e que nos anos iniciais dispõe do ensino de LIBRAS. Colocou que o remanejamento dos alunos causaria dificuldades para os familiares e de interação dos pais com a escola; e que enfraqueceria a escola, que provavelmente seria extinta, bem como o vínculo com a comunidade.

A coordenadora do Sind-UTE/MG, Subsede Caxambu, Carla Márcia Fernandes de Carvalho, colocou que a proposta era inoportuna, principalmente em época de pandemia. Explicou que o Projeto Mãos Dadas propõe aos municípios mineiros ampliarem a oferta dos anos iniciais do Ensino Fundamental  nas unidades escolares, conforme prevê a Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Explicou que quando defendia a não municipalização, defendia a permanência dos empregos efetivos e dos contratados que não seriam extintos e acrescentou que a Educação é a área que mais emprega no município. Enfatizou que a educação trabalho com o ser humano em diversos aspectos e que diversas cidades da região não aceitaram a municipalização e que era preciso estudar os impactos que seriam gerados para os professores, inclusive para efeito de aposentadorias. Avaliou que a municipalização traria prejuízo financeiro para o município e destacou a importância da escola para a comunidade do Vila Verde e adjacências. Defendeu um ensino público e de qualidade, que não seja colocado em segundo plano, preservando a construção da escola.

A representante de pais dos alunos Graziela Schmitt pediu o apoio dos vereadores para a não municipalização, que não foi discutida com eles. Justificou que a escola existe há anos e os alunos estão bem instalados, com professores, direção e supervisão bem capacitados. Colocou a dificuldade que os pais teriam com a possível transferência dos alunos para estabelecimentos mais distantes.

O presidente da Associação Cultural do Bairro Vila Verde, Carlos Roberto da Silva, reconheceu o empenho dos professores para manter os alunos na escola. Pediu que a situação fosse revista, pois a municipalização seria prejudicial para o Caxambu Velho e Vila Verde.

O representante dos professores contratados João Carlos Junqueira expressou que a apresentação do Projeto Mãos Dadas, sem discussão, corrompia a democracia. Colocou que a Secretaria de Estado de Educação sempre pautou na integração da comunidade escolar e recordou que a proposta de municipalização ainda era um projeto que tramitava na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, mas que o Mãos Dadas dependia do governador e que muitas mudanças ocorreriam no decorrer do processo.

Achou esquisito o projeto, pois o Estado em época de pandemia, não perguntou se as escolas teriam condições de oferecer as aulas on line, mas que agora apareceu o dinheiro para a municipalização, uma contrapartida para o município. Recordou que diversos municípios da região não aceitaram a municipalização e acrescentou que o projeto não foi discutido pelo Conselho Municipal de Educação, denominando-o de “Projeto Mãos Livres”, um “Presente de Grego”.

A secretária municipal de Educação, Ariana Maria Oliveira de Paula, explicou que o Estado expôs o projeto para o município, em maio. Falou que a primeira vantagem para o município era a absorção dos alunos, do 1o ao 5o ano, totalizando 128, que poderiam sim ser absorvidos, e colocou que a maior dificuldade seria o transporte escolar. Considerou que seria possível a absorção pelo município, pois o número de alunos da rede pública tem diminuído razoavelmente.

Enfatizou que o município não tem a intenção de prejudicar nem os alunos e nem os professores. Falou também da possibilidade de coabitação, uma situação a ser discutida. Colocou que o município oferece uniformes e material escolar. Adiantou que se houvesse a absorção dos alunos, os gastos orçamentários seriam menores, e o gasto maior seria com o transporte. Coabitando com o Estado, aumentaria o orçamento.

O prefeito Diogo Curi citou as melhorias realizadas pela Administração no Vila Verde, como o calçamento de todas as ruas, a reforma da quadra esportiva e a colocação em pleno funcionamento da Estratégia Saúde da Família. Avaliou que o bairro precisa de uma escola de qualidade em termos de estrutura, ressalvando o trabalho prestado à comunidade, e colocou que o Estado não tem mais a função de atender as crianças de 1 a 5 anos. Explicou que as crianças coabitam com jovens maiores de idade; que a escola não é murada, o que facilita a entrada de coisas indevidas; e que não tem uma quadra esportiva adequada.

Garantiu que abraçaria as crianças da escola, como acontece com as demais, e que em seu mandato a escola não seria fechada. Adiantou que poderá haver fechamento de outra, em virtude da redução do número de alunos. Reforçou que, se necessário, o município acolheria e abraçaria as crianças do Cabo Luiz, oferecendo inclusive uma merenda de alta qualidade. Pediu aos pais que analisassem o que seria melhor para os alunos e qual escola seria melhor.

Reafirmou que não desampararia as crianças e que dentro da proposta de coabitação: Estado e município na mesma escola, gastaria os R$ 480 mil para murar o espaço e construir uma área esportiva.

Manifestações dos vereadores

– O secretário Arnaldo Ribeiro considerou a situação difícil e delicada, em busca do melhor possível para as crianças, os alunos e professores. Questionou a existência da possibilidade de municipalização sem transferir os alunos da escola e enfatizou que o governo municipal é um governo de soluções. Expôs que ainda não tinha opinião formada sobre a situação e demonstrou desconfiança com o governo estadual e admiração pela escola.

– O vereador Dennis Renato Carneiro observou que a maior preocupação era a escola deixar de existir, mas que com a possibilidade de coabitação, a população ficaria mais confortável. Por outro lado, demonstrou preocupação com o desemprego e considerou a Audiência Pública bastante esclarecedora.

– O vereador Fábio Curi, Líder do Governo, enalteceu o debate ocorrido e recordou que o assunto estava sendo bastante discutido na Casa nas Reuniões Ordinárias. Colocou que o Estado é um ente repassador de recursos e observou que a rede pública de ensino possui 850 alunos, que as escolas estão reformadas e que possuem uma estrutura melhor. Expôs que a municipalização não poderia afetar os professores efetivos e nem os contratados. Considerou que o imóvel poderia ser reformado com os R$ 480 mil, a contrapartida do Estado. Avaliou que a municipalização aproximaria a escola da Administração.

– O vereador Gilson Rodrigues colocou que não estava em discussão o mérito da Administração, que adota uma política de transparência e resultados. Posicionou-se contrário à municipalização e demonstrou preocupação e desconfiança com o governo do Estado.

– O vereador João Francisco (Sapê) endossou as palavras do colega Gilson Rodrigues. Reforçou que o Executivo e Legislativo estavam preocupados com a situação e discutiam constantemente com a comunidade a possibilidade de municipalização, para se chegar num consenso. Cumprimentou a professora Cristina em nome dos demais professores, direção e funcionários da escola, pela dedicação e amor aos alunos. Colocou que a maior preocupação da comunidade escolar era manter os alunos no mesmo prédio.

– O vereador Júlio Nogueira (Júlio da Corneta) considerou a Audiência Pública muito proveitosa, reconheceu a atuação da Administração e concordou que a municipalização causaria desemprego. Considerou que a Casa já tinha argumentos suficientes para votar contra o projeto e reconheceu a competência do município, mas enfatizou que o Estado estava empurrando as suas funções. Denominou o projeto como “lava as mãos” e defendeu a permanência dos empregos na Cabo Luiz.

– O vereador Osmar da Silva (Boé) considerou importante defender a democracia e colocou que o mais importante era priorizar as crianças. Posicionou-se contrário à municipalização, mas pediu que, se caso ocorresse, que a escola desce continuidade as suas atividades, priorizando o menor.

– O vereador Vinicius Hemetério questionou a professora Carla Fernandes o custo anual de cada aluno do município e do Estado.

A professora informou que o município tem atualmente 835 alunos e absorveria 128, totalizando 963 nos anos iniciais do Ensino Fundamental, e que a rede teria um aumento de 15,3%. O município gastou com cada aluno em 2018, R$ 8.704,55; em 2019, R$ 5.731,33; e em 2020, R$ 6.312,14. A média do Estado é de mais ou menos R$ 4 mil por aluno.

– O vereador Vinicius Hemetério considerou muito valorosa a Audiência Pública principalmente porque ouviu a comunidade. Colocou que a educação é comunidade, é família, é história. Falou que como professor sabia o quanto o profissional se apega aos alunos e à escola. Posicionou-se de forma contrária à municipalização, que tanto afetaria o Caxambu Velho e o Vila Verde e os bairros adjacentes.

– O vice-prefeito Luiz Henrique Diório ratificou que o compromisso da Administração era abraçar as crianças, independente da municipalização ocorrer ou não. Reforçou que faria o possível para elas terem um ensino de qualidade e que a questão não eram os R$ 480 mil oferecidos pelo Estado. Deixou bem claro que a Administração cumpriu com tudo que foi prometido na anterior, bem como neste primeiro semestre. Em relação à continuidade das políticas públicas, falou que passa por todos os cidadãos que escolhem os seus representantes.

– O presidente Alessandro Fortes (Sandrinho do Som) registrou que a Câmara Municipal de Caxambu foi a única da região que fez Audiência Pública para discutir o assunto.